Resenha: Alchemised | Quase mil páginas de uma decepção anunciada 🍒🍒
- Laatena

- 6 de mai.
- 8 min de leitura
Depois de meses vendo Alchemised em todos os lugares, com leitores descrevendo a história como uma fantasia devastadora, intensa e inesquecível, comecei a leitura com expectativas muito altas. A obra chegou cercada de hype não apenas por sua publicação, mas também por sua origem: antes de se tornar um romance original, a história era conhecida como Manacled, uma fanfic de Harry Potter que conquistou uma enorme comunidade de leitores.
Aviso de conteúdo: esta resenha menciona temas presentes no livro, como violência sexual, tortura, guerra, abuso e relacionamentos problemáticos.

Confesso que estava curiosa. Mesmo sem ser uma grande fã de Harry Potter, cresci assistindo aos filmes e reconheço o quanto aquele universo faz parte das referências de muita gente. Por isso, queria entender como uma história que nasceu dentro de um fandom conseguiria se sustentar como uma fantasia original, com personagens, conflitos, sistema de magia e universo próprios.
Infelizmente, para mim, Alchemised não conseguiu fazer essa transição de forma convincente.
Antes de se chamar Alchemised, a história era conhecida como Manacled. Na fanfic, acompanhávamos uma versão alternativa do universo de Harry Potter em que Harry morre, Voldemort vence a guerra e Hermione se vê em uma realidade muito mais sombria do que aquela que conhecemos nos livros originais.
Ao transformar essa narrativa em uma obra original, os nomes e elementos foram alterados. Draco e Hermione se tornaram Kaine e Helena; o universo mágico já conhecido precisou ser substituído por um novo mundo de alquimia, guerra, resistência e magia própria. E é justamente aí que, para mim, mora o principal problema.
Em uma fanfic, existe uma conexão emocional imediata. Não é necessário apresentar completamente quem são aqueles personagens, porque o leitor já conhece Hermione, Draco, Harry e todo o peso que existe por trás de suas histórias. A dor de Hermione em uma realidade devastada funciona porque já acompanhamos sua trajetória durante anos. Sabemos quem ela é, o que ela representa e tudo o que perdeu.
Em Alchemised, Helena deveria carregar esse mesmo peso emocional, mas eu não consegui sentir isso. A autora precisa nos convencer de que ela está devastada, traumatizada e marcada pela guerra, mas a construção não teve o mesmo impacto. Em vez de sentir a dor dela, muitas vezes senti que o livro apenas repetia que ela estava sofrendo.
Um universo grandioso, mas pouco consistente
A proposta de Alchemised chama atenção: um mundo de alquimia, segredos, guerra, resistência, poderes perigosos e personagens moralmente ambíguos. No papel, tudo parece promissor. Era para ser uma fantasia densa, sombria e cheia de camadas.
Mas a execução me pareceu confusa, inconsistente e cansativa.
O livro tem mais de novecentas páginas, mas boa parte dessa extensão não contribui para o desenvolvimento da história. Há muitas repetições de ideias, falas e situações. Em diversos momentos, parecia que eu estava lendo a mesma cena com pequenas mudanças de contexto.
Um exemplo disso é a forma como a narrativa insiste em mostrar que Helena é maltratada pela resistência. A autora apresenta essa dinâmica uma vez, depois outra, depois mais uma, até que o impacto desaparece completamente. Em algum momento, eu já tinha entendido a mensagem, mas o livro continuava voltando ao mesmo ponto sem acrescentar novas camadas ou consequências relevantes.
A sensação foi de que Alchemised queria ser enorme, complexo e grandioso, mas não sabia exatamente como sustentar tudo isso. Existem regras de magia que parecem vagas, explicações que não se conectam e informações que surgem apenas quando a trama precisa delas.
“Você é como uma rosa em um cemitério”, disse ele, e seus lábios se contorceram em um sorriso amargo. “Eu me pergunto no que você poderia ter se transformado sem a guerra.”
O caso dos animantes, por exemplo, me incomodou bastante. Em determinado momento, o livro estabelece que eles são raros, quase excepcionais. Mais tarde, várias pessoas aparecem sendo animantes em segredo, o que enfraquece completamente a ideia de raridade que havia sido apresentada antes. São detalhes assim que fazem o mundo parecer pouco planejado e difícil de acreditar.
SenLinYu tenta explicar esse universo muitas vezes, por muitas páginas, mas, no fim, ainda restam perguntas demais e respostas de menos. A impressão que tive foi de um mundo construído a partir de vários elementos conhecidos de outras fantasias, mas sem uma lógica interna forte o suficiente para fazê-lo funcionar como algo próprio.
Uma estrutura que torna a leitura ainda mais cansativa
A estrutura da narrativa também não ajudou na minha experiência.
O livro é dividido em três partes, mas a ordem dos acontecimentos é fragmentada. A primeira parte se passa depois da guerra, quando Helena desperta sem lembrar de partes importantes de sua vida e é enviada para Kaine, que precisa descobrir o que ela reprimiu em sua memória.
A segunda parte, que é a mais longa, volta no tempo e mostra tudo o que aconteceu durante a guerra. Ou seja, ela funciona como um grande flashback que explica como os personagens chegaram ao ponto em que a história começou.
A terceira parte mostra o que acontece depois.
Na prática, a ordem cronológica seria: parte dois, parte um e parte três.
“Você é insubstituível”, disse ele, com as mãos trêmulas contra os ombros dela. “Você não precisa tornar sua morte conveniente. Você tem o direito de ser importante para as pessoas.”
A primeira parte já começa confusa porque é onde a autora tenta apresentar o universo, as regras, os poderes e o contexto político da história. A segunda parte, apesar de trazer mais informações, é longa demais e perde força porque o leitor já sabe, em linhas gerais, qual será o desfecho daquele período. E quando finalmente chegamos à terceira parte, que poderia ser a mais interessante, eu já estava tão cansada da leitura que só queria terminar.
É muito triste fechar um livro tão extenso sentindo mais alívio por ter acabado do que emoção pelo final. Mas foi exatamente assim que me senti.
Um romance que não funcionou para mim
Se a fantasia não conseguiu me convencer, eu ainda esperava que o romance pudesse sustentar a leitura. Afinal, a história nasceu como uma fanfic de Dramione e foi vendida durante muito tempo como uma narrativa intensa, trágica e emocionalmente carregada.
Mas, para mim, o romance também não funcionou.
Kaine e Helena não têm química. O slow burn não cria expectativa, não desperta ansiedade e não faz o leitor torcer por um momento de aproximação. As interações entre os dois me pareceram vazias, previsíveis e carregadas de clichês que não funcionaram para mim.
“Ele a amara, mesmo sem jamais esperar que fossem algo além de fadados ao fracasso. Mesmo assim, ele a amara.”
Frases possessivas, declarações grandiosas e momentos que deveriam ser intensos acabaram causando mais vergonha alheia do que emoção. O famoso “você é minha”, por exemplo, não me pareceu romântico dentro do contexto da história. Apenas reforçou uma dinâmica que já era desconfortável.
E preciso falar sobre o que mais me incomodou: a forma como a violência sexual é tratada dentro da relação central.
Entendo que Alchemised é uma história de guerra. Entendo que os personagens vivem em um contexto brutal, violento e traumático. Mas existe uma diferença entre retratar violência e transformar uma relação marcada por abuso em algo que o leitor deveria aceitar como romance.
Kaine comete atitudes muito graves contra Helena, e a narrativa parece constantemente tentar suavizar ou justificar essas ações. Helena, por sua vez, passa grande parte do livro encontrando um “mas” para tudo o que ele faz. E, para mim, existem situações que simplesmente não deveriam ser justificadas.
O livro possui alertas de gatilho, o que é importante. Ainda assim, acompanhar esse tipo de violência envolvendo o casal principal e depois ver a história tentando transformar isso em uma relação romântica foi algo que não consegui engolir.
“Eu avisei: se algo acontecer com você, eu mesmo destruirei a Chama Eterna. Isso não é uma ameaça, é uma promessa. Considere sua sobrevivência tão essencial para a Resistência quanto a de Holdfast. Se você morrer, eu matarei cada um deles.”
A cena que poderia ter sido uma das mais pesadas da narrativa, justamente por envolver violência sexual, é escrita de uma forma tão confusa que eu nem sei se causou o efeito que a autora pretendia. No fim, não senti impacto, apenas desconforto e frustração.
Personagens que não conseguem criar conexão
Outro problema foi a falta de apego que senti pelos personagens.
Em uma história de guerra, mortes, perdas e sacrifícios deveriam ter peso. O leitor deveria sentir medo quando alguém está em perigo, tristeza quando alguém se vai e esperança quando os personagens encontram uma pequena chance de sobreviver.
Mas eu não senti isso.
Há mortes ao longo do livro, mas nenhuma delas realmente me atingiu. Não porque eu seja indiferente a histórias pesadas, mas porque não consegui me conectar com ninguém. Os personagens secundários aparecem, cumprem alguma função para o enredo e depois desaparecem como se nunca tivessem existido.
Luc, que deveria ter um papel importante como líder da resistência, é quase irrelevante. Para uma história que envolve guerra, resistência e decisões políticas, achei estranho como tantas coisas acontecem sem que ele esteja presente, saiba delas ou tenha participação real.
Helena foi a única personagem de quem eu consegui gostar um pouco. Ela é uma protagonista que passa por muita coisa e, em teoria, deveria ser fascinante. Porém, me incomodou o fato de o livro insistir em dizer que ela é extremamente inteligente sem realmente mostrar essa inteligência.
Na maior parte do tempo, Helena é a última a descobrir, a última a entender e a última a perceber o que está acontecendo ao seu redor. Ela tem poucas atitudes realmente marcantes, pouca agência e, apesar de toda a dor que carrega, acaba sendo uma personagem muito apagada dentro da própria história.
É difícil não fazer comparações quando sabemos de onde a obra veio. Hermione sempre foi uma personagem brilhante, ativa e essencial para os acontecimentos. Helena, por outro lado, é apresentada como alguém inteligente, mas raramente tem espaço para provar isso.
O peso do hype e uma conclusão apressada
Foram quase vinte dias insistindo em uma leitura que não fluía. Eu queria gostar de Alchemised. Queria entender por que tantas pessoas falavam sobre ele com tanta paixão. Queria terminar o livro emocionada, destruída ou, pelo menos, impactada.
Mas terminei apenas cansada.
Depois de mais de novecentas páginas, o grande conflito do mundo é resolvido em poucos capítulos. A conclusão parece apressada, especialmente depois de uma narrativa tão longa e repetitiva. Faltou impacto, faltou emoção e faltou aquele momento grandioso que uma fantasia de guerra, magia e tragédia promete entregar.
“Ela não merece ser esquecida assim. Ela não deveria ser uma nota de rodapé. Esta não deveria ser a única menção a ela. Ela merece um capítulo próprio. Ela merece um livro inteiro só para ela.”
O livro fala muito, explica muito e repete muito, mas, para mim, diz pouco.
Entendo o apelo de Alchemised como fenômeno. Entendo que leitores que acompanharam Manacled podem ter uma conexão afetiva muito forte com a história e com os personagens originais. Também entendo que a proposta de uma fantasia sombria, com guerra, romance proibido e moralidade cinzenta, seja extremamente atraente.
Mas, isoladamente, como um romance original, Alchemised não se sustenta para mim.
A construção de mundo é confusa, os personagens não têm força suficiente, o romance é problemático e o livro é muito maior do que precisava ser. A transformação de fanfic em obra original parece ter desgastado a história, retirando justamente aquilo que talvez fizesse sentido dentro do universo em que ela nasceu.
No fim, achei Alchemised superestimado. Uma leitura longa, cansativa e frustrante, que terminei mais por insistência do que por interesse.
Minha nota foi 2 estrelas.

ALCHEMISED - SENLINYU
SINOPSE:
Helena Marino é uma prisioneira de guerra ― e também da própria mente. Outrora considerada uma alquimista de futuro promissor, ela viu o mundo ruir e seus poderes se esvaírem quando seus aliados foram brutalmente assassinados. Após um longo e violento conflito, Paladia tem uma nova classe dominante, formada por guildas corruptas e necromantes depravados. Suas criaturas vis e mortas-vivas foram essenciais para a vitória na guerra, e o uso da necromancia se tornou o modus operandi. Os novos governantes mantêm Helena em cativeiro. De acordo com os registros, ela era uma figura de pouca importância na hierarquia. Mas, quando seus carcereiros descobrem que a memória da prisioneira foi alterada, surge a dúvida se o papel dela na Resistência era tão irrelevante quanto se imaginava. Talvez o esquecimento esconda algo poderoso, o gatilho para uma ofensiva derradeira. Para revelar o que as profundezas sombrias de sua memória ocultam, a mulher é enviada ao comando de um dos mais implacáveis necromantes do novo mundo. Aprisionada em meio a ruínas, Helena luta para proteger seu passado perdido e preservar os últimos resquícios de quem foi um dia. Mas o martírio está apenas começando, pois sua prisão e seu captor têm os próprios segredos… E ela terá que desvendá-los. Custe o que custar.




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