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Resenha: O Ceifador | A vida eterna tem um preço🍒🍒🍒

  • Foto do escritor: Laatena
    Laatena
  • 7 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de jun.

O Ceifador era um daqueles livros que já estavam há muito tempo na minha lista de leitura. Eu ouvia comentários extremamente positivos sobre a obra, via muita gente elogiando a proposta original da história e, por isso, a curiosidade acabou falando mais alto. Depois de tanto tempo querendo conhecer esse universo, finalmente me permiti mergulhar nessa narrativa, e posso dizer com toda certeza que não me arrependi nem por um segundo.



A história acompanha Citra e Rowan, dois adolescentes de dezesseis anos que vivem em um mundo muito diferente do nosso. Em uma sociedade utópica, na qual a morte natural foi praticamente superada e a humanidade aprendeu a conviver com a imortalidade, existe a necessidade de um grupo especial: os ceifadores. São eles os responsáveis por manter o equilíbrio da população, recolhendo vidas de forma controlada e seguindo regras extremamente rígidas. É nesse contexto que Citra e Rowan são escolhidos pelo honorável ceifador Faraday para se tornarem seus aprendizes, mesmo sem saberem exatamente o peso que isso representa.


Desde o começo, o livro me conquistou pela originalidade da proposta. Neal Shusterman constrói um universo que, à primeira vista, parece perfeito: não existe crime, pobreza ou grande parte dos males que conhecemos em nossa realidade. É um mundo de paz, organização e abundância. Mas, quanto mais a história avança, mais percebemos que até mesmo uma utopia carrega suas contradições. Quando a morte deixa de ser um risco natural e a juventude pode ser restaurada repetidamente, surge um novo tipo de vazio. A humanidade passa a lidar com o tédio, com o desgaste emocional e com a falta de limites. E, dentro desse cenário, os ceifadores ganham um poder enorme, poder esse que pode ser usado com responsabilidade e empatia ou transformado em privilégio e abuso.

"Afinal, este é um mundo perfeito - e, num mundo perfeito, não devemos todos ter o direito de amar o que fazemos?"

O que mais me chamou atenção foi justamente essa complexidade moral. O livro não entrega respostas fáceis nem tenta simplificar a discussão sobre vida e morte. Pelo contrário: ele provoca o leitor o tempo todo. A função dos ceifadores é terrível e necessária ao mesmo tempo, o que torna toda a construção ainda mais interessante. Há uma tensão constante entre justiça, ética, compaixão e poder. E é isso que faz com que a narrativa vá muito além de uma simples distopia juvenil. Ela se torna uma reflexão profunda sobre quem somos, como lidamos com limites e o que acontece quando a humanidade perde o medo da finitude.


Também gostei muito da construção de Citra e Rowan. Os dois são personagens que se desafiam, se complementam e carregam visões muito próprias sobre o certo e o errado. Mesmo sendo colocados em uma situação competitiva e dramática, eles não perdem aquilo que os define de verdade. O mais interessante é que nenhum dos dois cai em estereótipos rasos ou em um romance forçado, o que eu achei excelente. Não há melodrama desnecessário, nem diálogo clichê tentando empurrar uma relação amorosa para o centro da trama. O foco está mesmo no amadurecimento dos dois, nas escolhas difíceis que precisam fazer e na forma como cada um responde ao peso daquela responsabilidade.


Citra, em especial, me parece uma personagem firme, inteligente e muito consciente do que está acontecendo ao seu redor. Rowan, por sua vez, foi o que mais me chamou atenção ao longo da leitura, principalmente porque ele é colocado diante de desafios muito mais duros e, em muitos momentos, é testado até o limite. Ainda assim, o que mais admirei nos dois foi a forma como eles permanecem fiéis às suas crenças centrais, mesmo quando tudo parece querer desviá-los do caminho. Eles não são perfeitos, mas são extremamente humanos dentro de um universo que questiona justamente o valor da humanidade.

"O dia definitivamente não correra como planejado mas quem era ela para resistir ao que claramente parecia obra do destino?"

Outro ponto que merece destaque é o próprio Faraday. Como mentor, ele representa uma visão de honra, responsabilidade e empatia que dá ao livro uma camada ainda mais forte. A forma como ele ensina seus aprendizes mostra que ser ceifador não é apenas exercer poder, mas carregar um peso ético imenso. Isso faz com que a obra vá construindo, aos poucos, uma sensação de admiração e desconforto ao mesmo tempo. Porque, apesar de toda a organização daquele mundo, fica a pergunta: até que ponto uma sociedade pode realmente se considerar perfeita quando precisa delegar a morte a alguém?


A leitura de O Ceifador me prendeu justamente por isso: pela construção do mundo, pelas reflexões morais e pela forma como a história consegue ser tão inteligente sem perder o ritmo. É um livro que entretém, mas também faz pensar. Em vários momentos eu fiquei completamente envolvida com a trama, tentando entender os limites daquele universo e observando como os personagens reagiam às situações mais extremas. Foi uma leitura envolvente, instigante e muito diferente de outras distopias que já li.

"Longe de mim querer o retorno da criminalidade, mas me aborrece o fato de nós, ceifadores, sermos os únicos provedores de medo. Seria bom ter concorrentes."

No fim, eu gostei muito desse livro. Gostei da proposta, da escrita, da profundidade da história e da forma como tudo é construído com tanta originalidade. O Ceifador conseguiu me prender do início ao fim, me deixou entretida e, ao mesmo tempo, me fez refletir sobre questões que continuam ecoando mesmo depois da última página. Sem dúvida, foi uma das minhas leituras favoritas de 2021, e tenho certeza de que entraria facilmente na minha lista de melhores do ano.

Saí dessa leitura querendo imediatamente continuar a série, porque fiquei muito curiosa para ver para onde essa história ainda pode ir.



O CEIFADOR - NEAL SHUSTERMAN SINOPSE:


Em O ceifador, a humanidade venceu a morte e todos podem rejuvenescer quantas vezes quiserem. Para controlar o excesso populacional, os ceifadores têm uma única tarefa: matar. A vida de Citra e Rowan, dois adolescentes de dezesseis anos, muda por completo quando se tornam aprendizes do ceifador Faraday - ao final do treinamento, só um deles será escolhido, e o outro, a sua primeira vítima.

A humanidade venceu todas as barreiras: fome, doenças, guerras, miséria... Até mesmo a morte. Agora os ceifadores são os únicos que podem pôr fim a uma vida, impedindo que o crescimento populacional vá além do limite e a Terra deixe de comportar a população por toda a eternidade. Citra e Rowan são adolescentes escolhidos como aprendizes de ceifador - um papel que nenhum dos dois quer desempenhar. Para receberem o anel e o manto da Ceifa, os adolescentes precisam dominar a "arte" da coleta, ou seja, precisam aprender a matar. Porém, se falharem em sua missão - ou se a cumplicidade no treinamento se tornar algo mais -, podem colocar a própria vida em risco.

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