Resenha: Saving 6 | Quando amar alguém não é suficiente 🍒🍒🍒
- Laatena

- 23 de jun.
- 9 min de leitura
Se você chegou aqui por acaso, preciso fazer um aviso: Saving 6 é o terceiro livro da série Boys of Tommen. Para entender completamente a história de Joey e Aoife, recomendo começar pelos dois primeiros livros. Inclusive, já compartilhei minhas opiniões sobre eles aqui no blog:
Saving 6 é o terceiro livro da série Boys Of Tommen, e desta vez Chloe Walsh nos entrega a história de Joey Lynch e Aoife Molloy. Diferente do que muita gente pode imaginar ao começar a leitura, esse livro não segue exatamente a mesma linha temporal dos anteriores. Na verdade, ele volta no tempo e mostra acontecimentos anteriores aos dois primeiros volumes, acompanhando o início da relação entre os protagonistas ainda na fase do ensino médio. É justamente essa construção mais “de origem” que faz com que a história tenha um ritmo diferente, mais rápido em alguns momentos, com capítulos curtos e uma necessidade constante de situar o leitor dentro da evolução desse vínculo.

A narrativa acompanha dois jovens que carregam dores muito diferentes, mas que acabam se encontrando um no outro de uma forma intensa e quase inevitável. Joey é um personagem profundamente marcado por responsabilidades que nunca deveriam ter sido dele tão cedo. Aoife, por sua vez, entra na história como alguém que traz uma energia mais leve, mas que também tem sua própria forma de lidar com os problemas ao redor. Juntos, eles constroem uma relação complexa, cheia de afeto, apego, dor, dependência e contradições. E é justamente essa mistura que torna o livro tão impactante.
Minha experiência com Saving 6 foi muito marcada pela emoção, mas também por certa distância em relação ao formato. Eu gostei desse livro, mas não tanto quanto Binding 13 e Keeping 13. Talvez isso aconteça porque eu me apeguei mais à construção dos livros anteriores, que têm uma narrativa que me prendeu de um jeito diferente. Em Saving 6, por ser uma história que se passa antes dos acontecimentos já conhecidos e por avançar por vários saltos temporais ao longo de quatro anos, eu senti que tudo acontecia de forma muito acelerada. Os capítulos curtos ajudam a dar dinamismo, mas, ao mesmo tempo, deixam a sensação de que algumas partes poderiam respirar mais. Em alguns trechos, eu queria mergulhar mais fundo em certas emoções e conflitos, mas a história seguia rápido demais.
Mesmo assim, é impossível negar que Chloe Walsh sabe construir personagens que ficam com a gente. O grande destaque do livro, sem dúvida, está em Joey. Ele é um protagonista extremamente complexo, dolorosamente humano e muito difícil de esquecer. Joey é aquele tipo de personagem que carrega o peso do mundo nas costas desde cedo. Ele precisa lidar com um pai abusivo, com uma mãe emocionalmente quebrada e com a responsabilidade de cuidar dos irmãos como se fosse o adulto da casa, quando, na verdade, ele mesmo ainda precisava ser cuidado. Ler sobre isso é desesperador. Em muitos momentos, a sensação é de pura angústia, porque a vida dele parece uma sequência de sobrevivência, sem espaço para descanso, acolhimento ou sequer esperança.
"—Ele sorriu para mim.—Meu Joseph. Meu menino corajoso. De fardos terríveis. Que carrega uma cruz. Mas está sempre se erguendo das cinzas. Sempre se levantando. Sempre sendo o protetor."
O que mais me tocou em Joey foi justamente essa realidade brutal. Ele não é apenas um personagem sofrido; ele é um menino forçado a crescer cedo demais, a assumir funções que não eram dele, a sustentar emocionalmente uma família inteira enquanto se desmancha por dentro. E, diante de tanta dor, faz sentido que ele encontre nas drogas e nas bebidas uma forma de fugir, ainda que isso o leve cada vez mais fundo no abismo. A autora não romantiza esse processo, e isso é um dos pontos mais fortes do livro. Ela mostra a dependência química com a dureza que ela merece, sem suavizar os impactos, sem transformar sofrimento em enfeite e sem oferecer soluções fáceis. É triste, pesado e, justamente por isso, muito verdadeiro.
Existe uma cena específica que é impossível esquecer: Joey com a agulha de heroína no braço. É um momento sufocante, incômodo e devastador. Ali, a sensação é de que ele chegou ao limite, de que a vida dele realmente pode ter acabado. E talvez o mais doloroso de tudo seja perceber que, mesmo nesse estado, Joey ainda mantém dentro de si uma vontade de mudar. Ele reconhece o erro, entende o quanto está afundando e tenta, à sua maneira, encontrar uma saída. Só que ele não faz isso por si mesmo, porque ele não se considera digno o suficiente para isso. Ele tenta mudar por Aoife, a única pessoa que ele ama fora da família. Isso diz muito sobre o quanto ele é destruído por dentro e, ao mesmo tempo, sobre o quanto ainda existe de amor e esperança nele, mesmo que quase escondidos.
"—O verdadeiro garoto perdido.—Seus lábios roçaram os meus.—Não se preocupe, Peter Pan, vou ser sua Wendy. Então eu a beijei."
Aoife é outro ponto importantíssimo da história. Eu gostei muito dela. Sei que existem leitores que não se conectam tanto com a personagem, e eu entendo os motivos, porque ela é intensa, insistente e, em alguns momentos, emocionalmente dependente de Joey. Mas eu consegui compreender muito bem o ponto de vista dela. Aoife é uma menina que sabe o que quer, mesmo que isso a coloque em situações complicadas. Ela é extremamente forte, talvez uma das garotas mais fortes que eu já li, justamente porque entrega o coração por completo a alguém que está sempre à beira do caos. Ela sabe que a relação é instável, problemática e, em muitos momentos, tóxica. Ainda assim, ela permanece ali.
E é importante dizer isso: a relação entre Joey e Aoife não é um romance leve, bonitinho ou idealizado. É uma relação problemática, explosiva e marcada por desequilíbrios emocionais. Os dois têm, sim, aspectos tóxicos no vínculo que constroem. A dependência emocional da Aoife em relação ao Joey é muito evidente, e isso traz um desconforto real durante a leitura. Mas, ao mesmo tempo, a presença dela também faz sentido dentro do contexto em que ele vive. Muitas vezes, Aoife não está ali apenas por amor romântico. Ela está ali porque Joey simplesmente não tem mais ninguém. E isso muda completamente a forma como a gente lê essa história.
"—Está bem. Eu te amo, Aoife Molloy.—Não faz isso.—Eu te amo—repeti com os olhos fixos nos dela, enxugando uma lágrima do seu rosto.—Eu te amo mais do que jamais amei alguém na vida. E não estou exagerando. É a mais completa verdade."
Tem também um elemento que eu achei muito bem trabalhado pela autora: o impacto do pai abusivo do Joey e tudo o que essa figura representa na vida dele. Saving 6 aprofunda ainda mais os conflitos familiares que já haviam sido apresentados nos outros livros da série e complementa de forma importante o que já sabíamos sobre esse universo. O relacionamento de Joey com Teddy é especialmente doloroso de acompanhar, porque deixa claro o quanto ele foi ferido, negligenciado e violentado dentro da própria casa. Não existe descanso para esse personagem, e isso faz a leitura pesar ainda mais.
Outro ponto que me chamou muito a atenção foi a mãe do Joey, Mary Lynch. Eu acho que ela é um dos personagens mais difíceis de avaliar, justamente porque parece carregar duas versões muito distintas dentro da mesma história. Em alguns momentos, ela soa como uma mulher traumatizada, presa ao próprio passado, quase como se ainda tivesse a idade do trauma inicial que sofreu. Em outros, ela simplesmente aparece como alguém que projeta em Joey dores que ele não causou e responsabilidades que não são dele. A cena em que ela fala com Aoife me marcou muito, porque fica claro que, de alguma forma, ela queria ter sido ouvida quando era mais nova, queria ter recebido o aviso que não recebeu. Só que isso não apaga a injustiça com o Joey. Ele não é o pai, não é o homem que destruiu a vida dela, e ainda assim acaba carregando reflexos dessa dor toda. É uma dinâmica muito triste, muito humana e extremamente complexa.
Eu também achei muito bonito o vínculo que Joey cria com o pai da Aoife. Foi uma adição importante para a história, porque trouxe para ele uma presença mais acolhedora e mostrou que, em meio a tanta ruína, ainda existiam pequenas ilhas de afeto na vida dele. Como nos dois primeiros livros nós não tínhamos tanta informação sobre esse lado da família da Aoife, foi interessante ver essa conexão crescer e perceber que Joey finalmente tinha alguém adulto que o enxergava com cuidado, e não apenas com julgamento.
"—Lembro de olhar pra aquele garotinho azarado na minha oficina carregando o peso do mundo nos ombros... Aquele garotinho me pediu uma chance—ele falou com a voz embargada.— E eu dei uma chance pra ele, e que bom, porque o homem que aquele menino se tornou é alguém de quem tenho um baita orgulho."
A escrita da Chloe Walsh continua sendo um dos maiores trunfos da série. Ela sabe como conduzir uma narrativa carregada de emoção e como transformar sofrimento em algo que realmente atravessa o leitor. Em vários momentos, eu senti preocupação, tristeza, raiva e esperança quase ao mesmo tempo. É aquele tipo de livro que aperta o peito, mas que a gente não consegue largar. Ao mesmo tempo, eu também achei que algumas partes poderiam ser mais objetivas. Por ser um livro longo e por repetir certos conflitos em alguns trechos, a narrativa perde um pouco de ritmo em determinados momentos. Isso não tira o impacto da história, mas faz com que a leitura, às vezes, pareça mais arrastada do que precisava ser.
Um detalhe que me tocou muito foram os agradecimentos da autora. Saber que Chloe Walsh estava atravessando um momento pessoal tão difícil, incluindo a perda de um filho, tornou tudo ainda mais forte para mim. Fiquei profundamente chocada ao ler isso, e meu sentimento por ela é imenso. É muito duro imaginar o tamanho da dor que ela carregava enquanto escrevia uma história já tão pesada emocionalmente. Talvez por isso Saving 6 tenha essa intensidade ainda mais crua, como se a própria escrita também fosse um processo de sobrevivência. E, de certa forma, Joey parece ter sido uma ponte para o retorno dela à literatura. Isso torna a obra ainda mais significativa.
No fim, Saving 6 é um livro que machuca, emociona e exige muito do leitor. Ele não entrega conforto o tempo todo. Pelo contrário: ele mostra abuso, vício, dependência emocional, trauma, negligência e responsabilidade precoce de uma forma muito dura. Mas também mostra amor, tentativa de cura, lealdade e a força de continuar mesmo quando tudo parece desabar. Joey é um personagem impossível de esquecer, porque ele representa uma dor que vai muito além do romance. Ele é a imagem de alguém que só queria ser amado, visto e protegido. E Aoife, com toda a sua intensidade e coragem, é a única pessoa que permanece ao lado dele quando tudo o resto falha.
"Eu não vou te substituir, Molloy.—Eu não poderia.—Estou tentando me consertar. Por você."
Por isso, mesmo com os pontos que me incomodaram — principalmente o ritmo acelerado e algumas repetições — eu ainda considero Saving 6 uma leitura marcante, profunda e extremamente emotiva. Não foi o meu favorito da série, mas foi, sem dúvida, um livro que me prendeu pela carga emocional e pela construção dos personagens. É uma história triste, pesada e dolorosa, mas também muito bonita na forma como mostra que, mesmo em meio ao caos, ainda existe amor tentando sobreviver.
Se eu pudesse resumir minha leitura em uma frase, seria esta: Saving 6 não é apenas sobre um romance, mas sobre sobreviver ao que a vida fez de pior com alguém — e ainda assim tentar salvar o pouco que resta.

SAVING 6 - CHLOE WALSH SINOPSE:
Ele está prestes a encontrar alguém à sua altura. Quando adolescentes do mesmo lado da linha férrea se desentendem.
Filho do segundo ano de um casamento desfeito, Joey Lynch passou a vida inteira tentando juntar os cacos de uma família em ruínas. Quando seu irmão mais velho, Darren, foge da cidade no primeiro dia de aula no ensino médio, Joey, de doze anos, se vê obrigado a proteger seus irmãos mais novos e sua mãe. Atormentado por autodesprezo e furioso com o mundo, ele luta contra a vida adolescente, seu inabalável senso de dever para com a família e, ao mesmo tempo, se equilibra perigosamente perto de uma vida de vício que ameaça consumi-lo por completo. A única luz em seu mar de escuridão é a filha explosiva de seu chefe, que se recusa a se submeter. Uma garota que, por acaso, é sua colega de classe.
Aoife Molloy nunca teve receio de se expressar. Sua natureza extrovertida e autoconfiante nunca a levou a caminhos errados. Até seu primeiro dia no ensino médio, quando ela se depara com um garoto impulsivo que desperta nela uma curiosidade ardente que só aumenta a cada dia.
Aoife se envolve em uma amizade complexa com o aprendiz de seu pai e tenta desvendar os segredos da vida de Joey Lynch, enquanto ele luta desesperadamente para mantê-la afastada.
Amizade, devoção e o primeiro amor se unem em Saving 6, o primeiro de dois livros sobre Aoife e Joey.
Ambientada na Irlanda, a série Boys of Tommen certamente irá cativar e transportar você para o mundo do rugby, do hurling, do amor e das desilusões amorosas da adolescência.




Comentários