Resenha: Impostora | Até onde alguém pode ir para conquistar o sucesso? 🍒🍒🍒🍒
- Laatena

- 6 de mai.
- 8 min de leitura
Antes mesmo de entrar na história de Impostora, é impossível não reparar na escolha gráfica da capa: os olhos amendoados em destaque sobre um fundo amarelo. Não é uma escolha aleatória. Em uma entrevista concedida em 2024, R. F. Kuang comentou que a imagem funciona como uma metáfora para a forma como identidades raciais podem ser reduzidas a rótulos básicos, rígidos e irresponsáveis, principalmente quando essas categorias são mercantilizadas e institucionalizadas.
E essa ideia resume muito bem o que encontramos ao longo do livro.

Impostora não é apenas uma história sobre plágio. Também não é apenas uma crítica ao mercado editorial. É uma narrativa incômoda, irônica e extremamente afiada sobre identidade, apropriação cultural, racismo, ego, culpa, ambição e sobre o quanto a indústria literária pode transformar pessoas e histórias em produtos.
É um livro que provoca, irrita, prende e faz o leitor questionar até onde iria para conquistar reconhecimento.
Quando a inveja deixa de ser apenas um sentimento
A história é narrada por June Hayward, uma escritora branca, mediana e frustrada que vive à sombra de Athena Liu, sua colega de faculdade e “amiga”. Athena é tudo o que June gostaria de ser: talentosa, rica, bonita, culta, bem-sucedida e reconhecida no mercado literário.
A relação entre as duas nunca pareceu realmente equilibrada. June inveja Athena de forma sufocante, enquanto Athena parece manter uma espécie de afeto por ela, ou, pelo menos, uma proximidade que June nunca entende completamente. Existe algo muito desconfortável nessa amizade, porque fica claro que June não consegue enxergar Athena como uma pessoa inteira. Ela a vê como uma comparação constante, como um lembrete de tudo o que ela não conseguiu conquistar.
O livro já começa com uma frase impactante:
“A noite em que presencio a morte de Athena Liu é a mesma em que comemoramos seu contrato de direitos audiovisuais com a Netflix.”
Pouco depois, Athena morre de uma forma perturbadora diante de June. E, em vez de apenas chamar ajuda e lidar com o choque da morte da amiga, June toma uma decisão que muda completamente o rumo da história: ela rouba o manuscrito inédito de Athena.
Esse manuscrito, chamado O Último Front, aborda a participação de trabalhadores chineses na Primeira Guerra Mundial. June revisa, modifica, complementa e publica o livro como se fosse seu, usando seu nome do meio, Song, de maneira bastante conveniente. Ela insiste que não tinha a intenção de parecer asiática, mas é impossível ignorar como essa escolha contribui para a ambiguidade que ajuda a impulsionar sua carreira.
E, de repente, June finalmente conquista tudo o que sempre desejou.
Mas até quando uma mentira consegue sobreviver?
June Hayward: uma narradora terrível e impossível de largar
June é uma das narradoras mais insuportáveis e interessantes que já li. Eu a odiei desde as primeiras páginas. Ela é invejosa, cruel, manipuladora, racista, egocêntrica e extremamente consciente de muitas das coisas horríveis que faz. O mais perturbador é que June não tenta esconder completamente quem é. Ela sabe que tomou decisões erradas, sabe que roubou o trabalho de Athena e sabe que está lucrando com a morte da amiga.
Mas, ao mesmo tempo, ela passa o livro inteiro tentando justificar suas escolhas.
June conversa diretamente com o leitor, antecipa julgamentos e tenta transformar suas atitudes em algo compreensível. Ela quer que entendamos seu desespero, sua frustração e o quanto se sente injustiçada pelo mercado editorial. Em alguns momentos, quase conseguimos sentir pena dela. E é justamente aí que Kuang mostra toda a sua habilidade.
"A inveja, para os escritores, parece mais com medo."
Porque June não precisa ser uma personagem agradável. Ela só precisa ser convincente.
Ela é o tipo de narradora que faz o leitor oscilar entre querer que ela seja descoberta e sentir ansiedade quando isso parece estar prestes a acontecer. Em muitos momentos, ela me lembrou Raskólnikov, de Crime e Castigo, porque existe essa mesma sensação de acompanhar alguém que cometeu um crime e tenta sobreviver às consequências psicológicas, sociais e morais daquilo que fez.
"Eu consegui. Eu realmente consegui. Estou vivendo a vida de Athena."
A diferença é que June não tem a mesma profundidade moral ou a mesma culpa de Raskólnikov. Ela sente medo de ser descoberta, mas muitas vezes parece mais preocupada com a própria carreira do que com o que roubou de Athena. E isso torna tudo ainda mais desconfortável.
O mercado editorial como cenário de guerra
Um dos maiores méritos de Impostora é a forma como R. F. Kuang constrói sua crítica ao mercado editorial.
A autora mostra um ambiente competitivo, desigual e profundamente movido por interesses financeiros. Editoras, agentes, leitores, críticos, redes sociais e autores aparecem como parte de uma máquina que, muitas vezes, se preocupa mais com vendas, tendências e polêmicas do que com ética.
Kuang também aborda a maneira como autores racializados podem ser tratados como símbolos de diversidade, como “tokens” dentro de uma indústria que deseja parecer inclusiva sem necessariamente transformar suas estruturas. Athena, enquanto autora sino-americana, é admirada e celebrada, mas também é constantemente reduzida à sua identidade racial. Sua imagem, sua origem e seus temas se tornam parte de uma embalagem vendável.
"Deveria ser a Atena sentada aqui, sorrindo com essas pessoas, assinando livros e ouvindo as histórias de seus mais velhos."
Quando June publica um livro sobre trabalhadores chineses na Primeira Guerra Mundial, a questão se torna ainda mais delicada. Por que uma mulher branca, que nunca demonstrou interesse por esse tema, decide escrever sobre ele? Até que ponto ela está homenageando Athena? Até que ponto está explorando uma história que não lhe pertence? E por que o mercado editorial parece disposto a aceitar isso enquanto o livro continua vendendo?
O livro não oferece respostas fáceis. Pelo contrário: ele provoca o leitor a pensar sobre autoria, representação, apropriação, diversidade e sobre quem tem o direito de contar determinadas histórias.
A internet, o cancelamento e a paranoia de June
Outro elemento muito presente na narrativa é a internet, especialmente as redes sociais. Twitter, Instagram, fóruns e comentários se tornam parte essencial da história, porque é através deles que June começa a ser questionada.
As pessoas percebem semelhanças entre a escrita dela e a de Athena. Questionam a escolha do nome Song. Criticam a ausência de uma leitura de sensibilidade racial. Perguntam por que June, uma autora branca, está lucrando com uma história sobre trabalhadores chineses.
E June reage como muitas pessoas reagem quando são confrontadas: ela se coloca como vítima.
Ela chama os críticos de trolls, militantes, ativistas em busca de atenção e pessoas que querem destruir sua carreira. Ela insiste que o problema está na internet, nunca nela. É uma personagem que se recusa a enxergar a própria responsabilidade e que transforma qualquer crítica em perseguição.
Essa parte do livro é extremamente atual e, em alguns momentos, até desconfortavelmente engraçada. Porque Kuang entende muito bem como funcionam os discursos online: as justificativas, as brigas, os ataques, os pedidos de desculpa vazios e a forma como as pessoas tentam controlar a narrativa sobre si mesmas.
June vive tentando criar uma versão em que ela não é a vilã. Mas, quanto mais ela tenta se defender, mais evidente se torna quem ela realmente é.
Mistério, culpa e fantasmas
Além da tensão causada pelo plágio e pela possibilidade de June ser descoberta, existe também um mistério que aparece logo no início e ajuda a manter a narrativa envolvente.
A cada capítulo, eu queria saber quem sabia sobre o manuscrito, quem estava por trás das mensagens e até onde June conseguiria sustentar sua mentira. O livro cria uma atmosfera de paranoia muito eficiente, porque nunca sabemos exatamente se June está sendo perseguida de verdade ou se está apenas sendo consumida pela culpa.
A presença dos fantasmas e da mitologia chinesa também adiciona uma camada interessante à narrativa. Como June roubou a obra de alguém morto, existe uma expectativa de que Athena continue assombrando a vida dela, seja de forma literal ou simbólica.
Gostei dessa ideia e achei que ela combinava muito com os temas de culpa, apropriação e memória. No entanto, foi justamente nessa parte que senti que o livro perdeu um pouco da força.
Um final que me deixou dividida
Eu devorei Impostora. Li de madrugada, nos intervalos do trabalho, durante o almoço e em qualquer momento livre que aparecia. É uma leitura rápida, viciante e impossível de largar, porque Kuang sabe exatamente como construir tensão.
Eu senti raiva, ansiedade, medo e até uma espécie de fascínio pela coragem da autora em criar uma protagonista tão desagradável. June é uma personagem que faz coisas horríveis, mas que nunca deixa de ser interessante. E isso é um grande mérito da escrita.
O final, porém, foi o único ponto que me deixou um pouco frustrada.
Ele é angustiante, flerta com a metalinguagem e mantém a atmosfera de incerteza até as últimas páginas. Mas senti que algumas coisas foram resolvidas rápido demais ou ficaram abertas de uma forma que não me provocou tanto quanto eu esperava. Não foi um final ruim, mas também não teve o impacto que eu imaginava depois de toda a construção da narrativa.
A parte mais fantasiosa envolvendo as mensagens, os perfis falsos e os fantasmas de Athena também me pareceu um pouco mais lúdica do que eu gostaria. Entendo que isso pode fazer parte da paranoia de June e do fato de estarmos acompanhando tudo pela perspectiva de uma narradora não confiável, mas ainda assim senti que o livro poderia ter encerrado de forma mais forte.
R. F. Kuang continua sendo brilhante
Mesmo com a pequena ressalva sobre o final, Impostora foi uma leitura excelente e muito marcante para mim.
R. F. Kuang é uma autora que não tem medo de ser incômoda. Ela escreve histórias que provocam, que expõem feridas e que fazem o leitor pensar mesmo depois de fechar o livro. A ousadia de uma autora asiática criar uma narradora branca que pratica yellowface e tenta se apropriar de uma narrativa asiática é extremamente subversiva.
Kuang não escreve para agradar. Ela escreve para provocar.
E, como leitora que ama A Guerra da Papoula, eu já esperava uma escrita inteligente, intensa e cheia de camadas. Ainda assim, Impostora conseguiu me surpreender. É um livro muito diferente da trilogia, mas carrega a mesma coragem de discutir temas difíceis sem suavizar as contradições.
"Com certeza, este será o livro da temporada."
Eu leria até a lista de supermercado da R. F. Kuang, porque ela tem uma habilidade impressionante de transformar qualquer tema em algo afiado, crítico e impossível de ignorar.
Vale a leitura?
Com certeza.
Impostora é uma leitura rápida, tensa, provocativa e cheia de discussões importantes. É um livro para quem gosta de narradores não confiáveis, protagonistas moralmente questionáveis, críticas ao mercado editorial e histórias que deixam o leitor desconfortável.
Não espere uma protagonista para amar. June Hayward não foi escrita para isso. Espere uma personagem que vai te irritar, te fazer questionar suas próprias reações e, em alguns momentos, até te fazer sentir empatia contra a sua vontade.
É uma história sobre ego, ambição, culpa, racismo, apropriação cultural e sobre a forma como o mercado editorial pode transformar identidades e dores em produtos vendáveis.
Terminei a leitura com a sensação de que R. F. Kuang mais uma vez conseguiu fazer exatamente o que queria: me deixar pensando, questionando e querendo conversar sobre esse livro com qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir.
Impostora é inteligente, inquietante, afiado e impossível de esquecer.

IMPOSTORA - R.F. KUANG
SINOPSE:
As escritoras June Hayward e Athena Liu se formaram em Yale e publicaram seus romances de estreia na mesma época. Tudo indicava que chegariam juntas ao estrelato, mas, pouco depois da graduação, Athena começou a colher louros literários, enquanto June recebeu apenas migalhas de reconhecimento. Afinal, ninguém aguenta mais ler histórias de mulheres brancas ― ao menos é o que June pensa.
Quando Athena morre em um estranho incidente, June decide que chegou seu momento de brilhar. Por impulso, ela rouba o manuscrito do novo livro da amiga, uma obra experimental sobre a relevância dos trabalhadores chineses durante a Primeira Guerra Mundial.
O texto é brilhante. E June recebe uma proposta de publicação de sua editora, que sugere um reposicionamento de mercado. E se ela passasse a usar um nome ambíguo, como Juniper Song? June aceita, pois se uma história é boa, precisa ser contada. E as listas de mais vendidos a fazem acreditar que está no caminho certo.
Mas alguém parece saber que a obra-prima de Athena Liu foi roubada, e debates sobre plágio e identidade racial ganham as redes sociais. June então percebe que não poderá escapar desse fantasma para sempre. Do que ela será capaz para proteger o sucesso que acredita merecer?
R.F. Kuang mostra a versatilidade de sua escrita ao construir um retrato satírico de como diversidade, racismo e apropriação cultural são abordados em uma indústria que se considera livre de preconceitos, mas que não escapa das armadilhas e crueldades de um sistema que reproduz discriminações.




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