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Resenha: Assombrando Adeline | Quando um dark romance ultrapassa o limite entre ficção e romantização do abuso🍒

  • Foto do escritor: Laatena
    Laatena
  • 24 de jul.
  • 18 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

Confesso que comecei Assombrando Adeline, da H. D. Carlton, muito mais pela curiosidade do que pela vontade de ler. Durante meses, esse livro simplesmente dominou o BookTok, aparecendo em praticamente toda recomendação de dark romance. Eram vídeos dizendo que era "o melhor livro do gênero", pessoas completamente obcecadas por Zade Meadows e comentários afirmando que essa era uma leitura indispensável para quem gosta de romances sombrios. Quanto mais eu via esse hype, mais curiosa eu ficava. Afinal, o que havia de tão extraordinário nessa história?


Bom... agora eu entendo por que tanta gente fala sobre esse livro. Mas não pelos mesmos motivos.


Antes de qualquer coisa, vale dizer que Assombrando Adeline é um livro para maiores de dezoito anos e possui inúmeros avisos de gatilho envolvendo perseguição, violência, abuso, tráfico humano, assassinato e sexo não consensual. Eu comecei a leitura sabendo exatamente disso. Nunca esperei encontrar uma história leve ou um romance tradicional. Sei muito bem que dark romance trabalha com personagens moralmente questionáveis, situações extremas e relações tóxicas. O problema nunca foi o gênero. O problema foi a maneira como tudo isso é apresentado. E, sinceramente, fazia tempo que um livro não me causava tanto desconforto.



A protagonista da história é Adeline Reilly, uma escritora que acaba herdando a antiga casa da avó, localizada em uma floresta e cercada por uma atmosfera completamente gótica. A casa guarda inúmeros segredos. Sua bisavó, Gigi, foi assassinada ali décadas antes, e durante uma reforma Adeline encontra antigos diários e cartas que começam a revelar uma história de perseguição, violência e obsessão que atravessou gerações da família.


Paralelamente a isso, conhecemos Zade Meadows. Zade é apresentado como uma espécie de vigilante. Ele lidera uma organização secreta que combate redes de tráfico humano, invade sistemas, caça criminosos e salva mulheres e crianças vítimas desse tipo de violência. Em teoria, ele representa alguém disposto a fazer qualquer coisa para destruir homens que abusam de pessoas inocentes.


Até que ele conhece Adeline. A partir desse momento, desenvolve uma obsessão imediata por ela. Começa a persegui-la constantemente, invade sua casa, observa todos os seus passos, manipula sua rotina e ultrapassa qualquer limite possível entre curiosidade, obsessão e crime.


O relacionamento dos dois passa a ser construído justamente sobre essa dinâmica de perseguição, controle e poder, enquanto, ao fundo, acompanhamos a investigação envolvendo o passado de Gigi e o mistério da casa.


(SPOILER) O livro termina com um enorme gancho para a continuação, quando Adeline acaba sequestrada por uma organização ligada ao tráfico humano — justamente o tipo de organização que Zade combate. No papel, existe uma premissa interessante. Mistério, suspense, romance sombrio, uma casa assombrada, cartas do passado e um protagonista que vive entre o heroísmo e a violência poderiam render uma história extremamente envolvente. Infelizmente, para mim, a execução passa muito longe disso.


O que realmente é um dark romance?


Antes de falar sobre o maior problema de Assombrando Adeline, acho importante contextualizar uma coisa. Sempre que alguém faz uma crítica a esse livro, é muito comum aparecer a resposta de que "você não entendeu o gênero" ou que "dark romance não é para todo mundo". E, sinceramente, eu concordo com a segunda parte. Realmente não é um gênero para qualquer leitor. Dark romance trabalha justamente com temas desconfortáveis, personagens moralmente questionáveis, violência, obsessão, relações de poder, vingança, traumas e diversas situações que um romance convencional jamais apresentaria como parte da narrativa principal. São histórias voltadas para um público adulto, que normalmente vêm acompanhadas de uma longa lista de avisos de gatilho justamente porque abordam assuntos extremamente delicados. Eu sabia exatamente onde estava me metendo quando comecei essa leitura e nunca esperei encontrar um romance fofo ou um protagonista perfeito.


O meu problema nunca foi o gênero em si. Inclusive, acho que existe uma diferença muito grande entre uma obra abordar um comportamento condenável e uma obra tentar convencer o leitor de que aquele comportamento é romântico. Literatura sempre tratou de violência, abuso, assassinatos, guerras, serial killers e inúmeros outros temas difíceis. O papel da ficção não é apresentar apenas personagens exemplares ou relações saudáveis, e eu jamais defenderia isso. Pelo contrário. Acho que histórias podem — e devem — explorar o lado mais sombrio do ser humano quando isso faz sentido para a narrativa. O ponto, para mim, é a forma como essas situações são construídas. Existe uma enorme diferença entre contar uma história sobre pessoas moralmente corruptas e transformar essas mesmas atitudes em algo desejável dentro da própria narrativa.


Na minha visão, é justamente aí que mora a essência do dark romance. Muita gente resume o gênero apenas a homens obcecados, mafiosos, assassinos ou stalkers, mas acredito que ele seja muito mais do que isso. Os protagonistas costumam ser anti-heróis ou até vilões, pessoas que fariam absolutamente qualquer coisa por quem amam. Eles mentem, manipulam, matam, roubam e atravessam limites que seriam inaceitáveis na vida real. São personagens construídos para provocar conflito, desconforto e questionamentos. Só que, historicamente, grande parte desses protagonistas direcionava essa violência para o mundo ao redor. Eram homens capazes de incendiar o mundo inteiro para proteger a mulher que amavam, mas não de fazer dela o alvo dessa violência. A obsessão existia, o excesso existia, a moralidade duvidosa também, mas havia uma linha que, para mim, ainda permitia enxergar aquele relacionamento como uma fantasia dentro da proposta do gênero.


Foi justamente essa linha que senti desaparecer em Assombrando Adeline.

Aqui, a violência deixa de ser algo externo ao casal e passa a fazer parte da própria construção do romance. O homem que deveria ocupar o papel de interesse amoroso invade a casa da protagonista, invade sua privacidade, controla seus passos, ignora repetidamente seus limites e, em diversos momentos, a própria narrativa transforma essas situações em demonstrações de desejo, paixão ou intensidade. Para mim, isso muda completamente a dinâmica da história. Não estamos mais falando apenas de um personagem moralmente cinza ou de um romance sombrio; estamos falando de um relacionamento construído sobre situações que, fora da ficção, seriam claramente reconhecidas como crimes nojentos.


O maior problema do livro: quando a violência passa a ser tratada como romance


Se houve um ponto que realmente definiu a minha experiência com Assombrando Adeline, foi este. Eu poderia relevar a escrita, a falta de desenvolvimento dos personagens, o ritmo irregular e até mesmo o romance sem química, mas existe uma questão que, para mim, compromete toda a proposta da obra: a maneira como ela constrói a relação entre Adeline e Zade. E quero deixar isso muito claro desde o início, porque sei que esse costuma ser um assunto bastante polêmico dentro da comunidade literária. O meu problema nunca foi a presença de estupro, abuso ou violência sexual em uma obra de ficção. A literatura sempre abordou os aspectos mais sombrios da humanidade e continua fazendo isso até hoje. Existem livros excelentes que tratam desses temas de maneira extremamente pesada justamente porque o objetivo é provocar reflexão, denunciar uma realidade ou explorar as consequências psicológicas da violência. O que me incomoda não é a existência dessas cenas, mas a forma como elas são inseridas na narrativa e, principalmente, o papel que elas desempenham dentro da história.


Durante toda a leitura, tive a sensação de que Assombrando Adeline não utiliza essas situações para discutir violência ou mostrar o impacto que ela causa, mas para construir a fantasia romântica entre os protagonistas. E essa diferença, para mim, muda completamente a experiência de leitura. Em vários momentos, Adeline demonstra medo, tenta impor limites, verbaliza que aquilo não deveria estar acontecendo e deixa claro que a situação foge completamente do seu controle. Ainda assim, o livro insiste em conduzir essas cenas como parte da tensão sexual entre os dois, como se a quebra constante dos limites da protagonista fosse apenas mais um elemento da dinâmica do casal. Quanto mais a história avançava, mais eu tinha a impressão de que o leitor era incentivado a enxergar aquelas atitudes como intensidade, paixão ou obsessão romântica, quando eu só conseguia enxergar violência.


O que mais me chamou a atenção é que o próprio livro parece reconhecer, em determinados momentos, a gravidade do que aconteceu. Existe uma passagem em que a própria Adeline pensa:


"Porque eu teria dormido com um stalker, um assassino e um homem que se forçou em cima de mim em várias ocasiões. Eu teria dormido com um homem que não respeita meus limites, meu espaço..."

Essa foi uma das marcações que fiz durante a leitura porque, naquele momento, tive a impressão de que a narrativa finalmente iria encarar as consequências das atitudes de Zade. A própria protagonista reconhece que ele invadiu seu espaço, desrespeitou seus limites e se impôs sobre ela em diversas ocasiões. Só que essa expectativa dura muito pouco. Logo depois, essas mesmas situações passam a ser relativizadas pela narrativa, como se o fato de Adeline desenvolver sentimentos por ele ou sentir desejo em outros momentos diminuísse a gravidade do que aconteceu anteriormente.


E foi justamente aí que o livro me perdeu de vez. Em diversos momentos, senti que a narrativa recorria à ideia de que "no fundo ela queria", de que "ela acabou gostando" ou de que, como os dois terminam envolvidos emocionalmente, aquelas situações deixam de ser vistas como violência. Esse tipo de construção sempre me incomoda porque acaba esvaziando completamente a ideia de consentimento. Consentimento não é algo que pode ser reinterpretado depois dos fatos. Ele não passa a existir porque, em outro momento da história, uma personagem desenvolveu sentimentos pela pessoa que a machucou. Consentimento também não nasce porque alguém acabou sentindo prazer durante uma situação que começou sem o seu acordo. O consentimento existe — ou não existe — no momento em que aquela situação acontece. É justamente por isso que nunca consegui enxergar essas cenas como parte de um romance, por mais que o livro tentasse me convencer do contrário.


Talvez seja exatamente por esse motivo que eu não consegui criar qualquer vínculo com o casal principal. Em um romance, por mais sombrio que ele seja, eu preciso acreditar minimamente na construção daquela relação para conseguir me envolver com a história. Aqui, isso nunca aconteceu. Toda vez que a narrativa tentava apresentar um momento de aproximação entre os dois, eu inevitavelmente lembrava de tudo o que havia acontecido antes. Não conseguia esquecer as invasões, a perseguição, a ausência de escolha e o desrespeito constante aos limites da protagonista. Isso impedia completamente que eu enxergasse qualquer evolução emocional entre eles, porque, para mim, a base daquele relacionamento já havia sido construída sobre uma violência que o próprio livro parecia disposto a minimizar.


Sei que muita gente costuma responder esse tipo de crítica dizendo que "é apenas ficção" e que fantasia não deve ser confundida com realidade. Eu concordo que ficção e realidade não são a mesma coisa, e jamais defenderia que livros só possam retratar relacionamentos saudáveis ou personagens moralmente corretos. Mas justamente por ser ficção, acredito que também podemos discutir a forma como determinadas histórias escolhem representar certos temas. Obras literárias podem ser analisadas, questionadas e interpretadas de maneiras diferentes, e essa foi a leitura que fiz de Assombrando Adeline. Para mim, o livro não apenas retrata comportamentos abusivos; ele os incorpora à construção do romance e espera que o leitor torça por essa relação. Foi exatamente isso que tornou a experiência tão desconfortável para mim.


No fim das contas, foi essa escolha narrativa que definiu completamente a minha opinião sobre o livro. Eu não terminei a leitura pensando que havia acompanhado uma história sobre obsessão ou sobre personagens moralmente ambíguos. A sensação com que fiquei foi a de ter lido uma obra que, em diversos momentos, transforma situações de abuso em demonstrações de desejo e intensidade romântica.


Personagens que nunca saem da superfície: o paradoxo chamado Zade Meadows


Depois de tudo isso, acho que faz sentido falar um pouco mais sobre os personagens, porque grande parte dos problemas que tive com Assombrando Adeline também está na maneira como H. D. Carlton constrói seus protagonistas. Eu terminei o livro com a sensação de que conhecia muito pouco tanto a Adeline quanto o Zade. Sabemos algumas informações básicas sobre os dois, conhecemos seus papéis dentro da história e acompanhamos inúmeros pensamentos em primeira pessoa, mas isso não significa, necessariamente, que eles sejam personagens bem desenvolvidos. Para mim, faltou profundidade. Faltou entender quem eles realmente são para além das características que o livro insiste em repetir o tempo todo. Adeline é apresentada como uma autora de romances sombrios que herdou a antiga casa da avó e encontra os diários da bisavó durante a reforma. Já Zade é o vigilante misterioso, o hacker genial, o homem capaz de derrubar organizações criminosas inteiras praticamente sozinho. Só que, conforme a história avança, tive a impressão de que ambos acabam ficando presos a essas descrições superficiais e raramente evoluem além disso.


No caso do Zade, essa falta de profundidade acaba se tornando ainda mais evidente porque o livro tenta vendê-lo como um personagem extremamente complexo, dividido entre o bem e o mal, alguém que vive constantemente em uma zona moral cinzenta. Em teoria, essa ideia tinha tudo para funcionar. Eu gosto de personagens moralmente ambíguos justamente porque eles costumam provocar conflitos interessantes no leitor. São personagens que tomam decisões questionáveis, que fazem coisas terríveis, mas cujas motivações normalmente são bem construídas, fazendo com que, mesmo discordando deles, consigamos compreender como chegaram até aquele ponto. O problema é que, para mim, Zade nunca alcança essa complexidade. Em vez de parecer um personagem moralmente cinza, ele acaba parecendo apenas contraditório.


Durante praticamente todo o livro, Zade dedica sua vida a combater organizações de tráfico humano, resgatar mulheres e crianças vítimas de exploração sexual e executar homens responsáveis por esse tipo de violência. Esse é, inclusive, um dos primeiros aspectos apresentados sobre ele e, confesso, foi justamente isso que despertou minha curiosidade no início da leitura. A ideia de acompanhar um personagem que atua como uma espécie de vigilante, disposto a ultrapassar a lei para combater criminosos, poderia render discussões muito interessantes sobre justiça, moralidade e até mesmo sobre os limites da violência quando utilizada contra pessoas igualmente violentas. Em um primeiro momento, cheguei a pensar que esse seria justamente o grande conflito do personagem.


Só que essa expectativa dura muito pouco.


Conforme sua obsessão por Adeline cresce, o próprio Zade passa a adotar comportamentos que contradizem completamente tudo aquilo que ele diz defender. Ele invade a casa dela inúmeras vezes, observa sua rotina sem consentimento, controla seus passos, invade sua privacidade, manipula diversas situações e ignora repetidamente os limites que ela tenta estabelecer. Em diversos momentos, ele faz exatamente aquilo que, teoricamente, dedica sua vida a combater. E esse é um paradoxo que o livro nunca consegue resolver. Pelo contrário: a narrativa parece esperar que o leitor enxergue essas atitudes de forma diferente apenas porque elas são direcionadas à protagonista e porque Zade está apaixonado por ela.


Foi justamente aí que perdi qualquer possibilidade de simpatizar com ele.

Porque, para mim, não faz sentido construir um personagem cujo maior propósito é punir homens que violentam mulheres enquanto ele próprio ultrapassa os limites da mulher que diz amar. O livro tenta estabelecer uma diferença entre esses dois comportamentos, como se o amor tornasse suas atitudes menos graves ou moralmente aceitáveis. Eu, sinceramente, nunca consegui enxergar essa distinção. Pelo contrário, quanto mais a narrativa insistia em reforçar que Zade fazia tudo aquilo por amor, mais contraditório ele me parecia. Se o próprio personagem passa capítulos discursando sobre o quanto despreza homens que tiram das mulheres o direito de escolha, por que o leitor deveria aceitar quando ele faz exatamente isso com Adeline?


Talvez essa contradição funcionasse melhor se existisse uma construção psicológica capaz de sustentar esse comportamento. Muitos anti-heróis da literatura carregam traumas profundos, experiências de infância, perdas ou acontecimentos que, embora não justifiquem suas atitudes, ajudam o leitor a compreender como eles chegaram até aquele ponto. Não se trata de absolver um personagem, mas de construir alguém psicologicamente interessante. No caso de Zade, porém, essa camada praticamente não existe. Em determinado momento, ele mesmo comenta que teve uma infância boa, uma família estruturada, estudou, entrou na faculdade e viveu uma vida relativamente normal antes de seguir o caminho que escolheu. Não existe um grande trauma, um acontecimento marcante ou uma ruptura que ajude a entender por que ele se tornou exatamente quem é. A impressão que tive foi a de que o livro simplesmente precisava que ele fosse um homem obsessivo e extremamente violento, sem se preocupar muito em desenvolver as razões para isso.


No fim das contas, Zade acabou sendo uma das maiores decepções da leitura para mim. Não porque eu esperasse um protagonista moralmente correto — afinal, esse nunca foi o objetivo da história —, mas porque esperava encontrar um personagem complexo, contraditório de maneira intencional e psicologicamente interessante. Em vez disso, encontrei alguém cuja personalidade parece girar em torno de uma única característica: ser obcecado por Adeline. Todo o restante da sua construção acaba ficando em segundo plano. E, quando um romance depende tanto do carisma e da força do seu protagonista, isso faz uma enorme diferença. Eu terminei o livro sem entender por que tantas pessoas consideram Zade um dos grandes nomes do dark romance, porque, para mim, ele nunca passou de um personagem superficial cuja principal característica é justamente a incoerência.


Personagens rasos e um romance que nunca me convenceu


Depois de falar sobre o Zade, acho impossível não comentar também sobre a Adeline e, principalmente, sobre a relação entre os dois. Afinal, esse é um romance, ou pelo menos deveria ser. Toda a narrativa caminha para que o leitor se envolva emocionalmente com esse casal, torça por eles e aceite que, apesar de tudo o que acontece ao longo da história, existe um sentimento verdadeiro sendo construído entre os protagonistas. O problema é que isso simplesmente nunca aconteceu comigo. Em nenhum momento consegui acreditar que estava acompanhando uma história de amor. O que enxerguei foi uma relação construída sobre obsessão, medo, manipulação e dependência emocional, mas quase nunca sobre afeto, confiança ou parceria. E, quando um romance não consegue me convencer de que existe alguma conexão genuína entre os personagens, todo o resto da história acaba perdendo força junto.


A própria Adeline foi uma personagem que me decepcionou bastante. No início da história, ela parecia ter potencial para ser uma protagonista interessante. Ela é uma escritora de romances sombrios, herda uma casa cercada por lendas e tragédias familiares, demonstra curiosidade pelo desconhecido e até comenta diversas vezes que gosta da sensação de sentir medo. Existe uma atmosfera muito interessante ao redor dela no começo do livro, principalmente por causa da casa da avó e do diário deixado por Gigi. A impressão inicial é a de que estamos diante de uma protagonista inteligente, curiosa e que terá um papel ativo na investigação desse mistério. No entanto, conforme a narrativa avança, senti que essa personalidade vai desaparecendo aos poucos. Em vez de acompanhar a evolução de uma personagem complexa, tive a sensação de que Adeline passa a existir quase exclusivamente em função do Zade e da dinâmica entre os dois.


Outro detalhe que nunca fez sentido para mim foi a forma como ela é apresentada. Em vários momentos, o livro insiste em chamá-la de "a manipuladora", quase como se essa fosse uma característica marcante da sua personalidade ou uma contraposição ao apelido de Zade, "a sombra". Só que, sinceramente, eu nunca consegui enxergar essa faceta nela. Durante toda a leitura, fiquei esperando o momento em que Adeline mostraria essa suposta habilidade de manipular situações ou pessoas, mas isso simplesmente nunca acontece. Ela reage aos acontecimentos muito mais do que os provoca. Grande parte da narrativa consiste em acompanhar suas respostas às ações de Zade, e não suas próprias decisões. No fim, esse título parece muito mais uma tentativa de criar uma dualidade interessante entre os protagonistas do que uma característica realmente desenvolvida pela autora.


Essa falta de desenvolvimento acaba afetando diretamente o romance. Eu sempre gosto quando um livro me faz entender por que dois personagens se apaixonam. Não estou dizendo que todo romance precise ser leve ou saudável, muito menos dentro do dark romance. Mas eu preciso conseguir identificar algum tipo de conexão entre eles que vá além da atração física ou da obsessão. Preciso acreditar que existe uma construção emocional acontecendo, mesmo que ela seja distorcida, problemática ou moralmente questionável. Em Assombrando Adeline, eu simplesmente não encontrei isso. O relacionamento dos dois avança muito mais porque a história determina que eles precisam ficar juntos do que porque existe uma aproximação emocional capaz de convencer o leitor.


Na maior parte do tempo, tive a impressão de que a relação entre Adeline e Zade gira em torno de um ciclo que se repete constantemente: ele invade seus limites, ela demonstra medo ou resistência, depois a narrativa introduz uma forte tensão sexual e, pouco tempo depois, tudo parece voltar ao ponto de partida. Em vez de desenvolver conversas, momentos de vulnerabilidade, descobertas ou situações que realmente aproximassem os dois como pessoas, o livro parece apostar quase exclusivamente na intensidade física da relação. Depois da metade da história, essa sensação ficou ainda mais evidente. Muitas cenas começaram a soar repetitivas e tive a impressão de que o enredo ficava constantemente interrompido para dar espaço a mais um encontro entre os protagonistas. Foi justamente nesse momento que comecei a perder o interesse pela história. Enquanto o mistério envolvendo Gigi continuava despertando minha curiosidade, o romance já não me causava absolutamente nada além de cansaço.


Talvez seja justamente por isso que eu nunca consegui torcer por esse casal. Não porque eles fossem personagens moralmente errados — afinal, esse é justamente um dos pilares do gênero —, mas porque nunca consegui enxergar uma evolução que justificasse aquele relacionamento. Não vi confiança sendo construída, não vi cumplicidade surgindo aos poucos, não vi respeito aparecendo entre eles. O que encontrei foi uma relação marcada desde o início pela perseguição, pela ausência de escolha e pelo desrespeito constante aos limites da protagonista. Para mim, isso impede que exista qualquer sensação de romance, independentemente do gênero da obra. No fim das contas, eu não conseguia olhar para Adeline e Zade e enxergar um casal; enxergava apenas duas pessoas presas em uma dinâmica extremamente tóxica que o livro insistia em apresentar como uma grande história de amor. E foi justamente por nunca acreditar nesse romance que boa parte do impacto emocional da narrativa simplesmente não funcionou para mim.


O mistério tinha potencial, mas nunca foi a prioridade da história


Se existe uma coisa que realmente me manteve interessada durante a leitura, foi toda a investigação envolvendo Gigi. Na verdade, ouso dizer que, se eu cheguei até o final de Assombrando Adeline, foi muito mais por causa desse mistério do que pelo romance em si. Desde o momento em que Adeline encontra os diários da bisavó escondidos na antiga casa da família, a narrativa cria uma atmosfera bastante interessante. Existe aquela sensação de que há algo muito maior acontecendo, como se o passado estivesse constantemente invadindo o presente. Aos poucos, vamos descobrindo que Gigi também viveu uma história marcada por perseguição, violência e obsessão, e acompanhar essas revelações foi, sem dúvida, a parte que mais despertou minha curiosidade durante toda a leitura. Era ali que eu realmente sentia vontade de virar a próxima página.


Talvez por isso eu tenha ficado tão frustrada com o rumo que a história tomou. A autora cria um cenário extremamente promissor: uma casa isolada, uma história de família cheia de segredos, cartas antigas, um assassinato nunca completamente esquecido e uma protagonista tentando reconstruir os acontecimentos do passado. São elementos que, juntos, poderiam sustentar um ótimo suspense psicológico ou até um thriller com uma atmosfera gótica muito marcante. Só que, na minha percepção, esse núcleo acaba ficando constantemente em segundo plano para dar espaço ao relacionamento entre Adeline e Zade. Sempre que eu sentia que a investigação finalmente estava avançando e que alguma revelação importante estava prestes a acontecer, a narrativa interrompia esse ritmo para voltar às interações entre o casal. Como eu já não estava envolvida com o romance, essas interrupções acabavam quebrando completamente o meu interesse.


A própria escrita da H. D. Carlton também contribuiu para essa sensação. Não achei a narrativa ruim a ponto de ser difícil de ler, mas também nunca senti que ela realmente me envolvesse emocionalmente. A alternância entre os pontos de vista de Adeline e Zade foi, provavelmente, uma das escolhas mais interessantes da construção da história, porque é através deles que conseguimos compreender um pouco melhor o que cada um está pensando. Ainda assim, senti falta de uma exploração mais profunda dos personagens e, principalmente, de um melhor equilíbrio entre os diferentes núcleos da trama. Até aproximadamente a metade do livro, eu ainda estava curiosa para descobrir onde tudo aquilo iria chegar. Existia um certo desconforto que, de alguma forma, me mantinha presa à leitura, muito impulsionado pelo mistério envolvendo Gigi e pela expectativa de entender como todas aquelas peças se encaixariam. Depois dos cinquenta por cento, porém, tive a impressão de que a narrativa começou a girar em círculos. As cenas entre os protagonistas passaram a se repetir com frequência, o desenvolvimento da história perdeu força e, em vários momentos, senti que estava apenas esperando o livro voltar para aquilo que realmente me interessava. O resultado foi uma leitura que começou despertando curiosidade, mas terminou causando muito mais cansaço do que envolvimento.


Então por que Assombrando Adeline faz tanto sucesso?


Essa foi, sem dúvida, a pergunta que mais passou pela minha cabeça enquanto eu lia. Depois de terminar o livro, continuei tentando entender o que fez Assombrando Adeline se transformar em um dos maiores fenômenos recentes do BookTok e do universo dos dark romances. Talvez seja justamente porque ele leva muitos dos elementos característicos do gênero ao extremo. Talvez porque choque, provoque e desperte curiosidade. Talvez porque seja uma leitura que gera discussão o tempo inteiro, seja entre quem ama, seja entre quem detesta. E não há como negar que livros assim acabam chamando atenção.


Ao mesmo tempo, também entendo que cada leitor estabelece limites diferentes dentro da ficção. Há quem consiga separar completamente fantasia e realidade e enxergue a relação entre Adeline e Zade apenas como uma dinâmica ficcional, sem qualquer intenção de levá-la para além das páginas do livro. Eu, particularmente, não consegui fazer essa separação durante a leitura. A maneira como o romance foi construído pesou muito mais para mim do que o suspense, o mistério ou qualquer outra qualidade que a obra pudesse ter. Em vez de me envolver, a história me deixou desconfortável durante boa parte do tempo e, quando deixou de causar esse desconforto, acabou se tornando repetitiva. Foi uma experiência em que nem o romance conseguiu me conquistar, nem os personagens despertaram meu interesse o suficiente para compensar os problemas que encontrei ao longo da narrativa.


Agora que existe uma adaptação em desenvolvimento, confesso que a minha maior curiosidade nem é revisitar essa história, mas descobrir como determinadas cenas serão transportadas para as telas. Grande parte das discussões em torno do livro gira justamente em torno da forma como essas situações são apresentadas, então será interessante observar como a adaptação pretende lidar com um material tão controverso. Independentemente do resultado, acredito que essa será uma obra que continuará dividindo opiniões — exatamente como o livro fez. No meu caso, porém, toda essa repercussão acabou criando uma expectativa que a leitura simplesmente não conseguiu atender.


Vale a pena?


Acho importante dizer que esta é apenas a minha experiência com a obra. Entendo que muitas pessoas gostem de dark romance justamente porque ele explora fantasias, exageros e situações moralmente condenáveis dentro da ficção. Não acredito que ler esse tipo de história, por si só, signifique concordar com tudo o que acontece nela.


Ainda assim, para mim, Assombrando Adeline ultrapassa um limite importante ao transformar repetidas situações de abuso e violência sexual em parte da construção romântica do casal.


No fim, o que encontrei foi um livro que tinha potencial para entregar um ótimo suspense psicológico, um mistério familiar interessante e uma atmosfera gótica envolvente, mas que acabou desperdiçando essas qualidades em um romance que nunca consegui comprar.


Saí da leitura com a sensação de que o mistério era muito melhor do que o casal, de que os personagens são rasos, de que a escrita não consegue aprofundar suas próprias ideias e de que o hype em torno da obra definitivamente não funcionou para mim.

Foi uma experiência extremamente desconfortável, um livro que me provocou muito mais indignação do que envolvimento e que, sinceramente, está muito longe daquilo que procuro quando penso em um bom romance — mesmo dentro do dark romance.



ASSOMBRANDO ADELINE - H.D. CARLTON SINOPSE:

A Manipuladora

Posso manipular as emoções de qualquer um que me permita.Vou te machucar, te fazer rir, te fazer chorar e suspirar.Mas minhas palavras não o afetam. Sobretudo quando eu imploro para ele ir embora.Ele está sempre ali, observando e esperando.E eu nunca consigo desviar o olhar.Não quando o que eu quero é que ele se aproxime.

A Sombra

Eu não queria me apaixonar.Mas agora que aconteceu, não consigo ficar longe.Estou hipnotizado pelo sorriso dela, por seus olhos e pelo jeito como ela se move.Pelo jeito como ela tira a roupa.Vou continuar observando e esperando. Até eu conseguir torná-la minha.E assim que ela for minha, nunca irei deixá-la ir.Nem mesmo se ela implorar por isso.

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